Desde o início de nossa espécie e sua radiação por todos os continentes, a humanidade desenvolveu diversos sistemas de produção de alimentos e, através da sua alimentação, influenciou de forma crítica nos ecossistemas à sua volta e em dezenas de milhares de espécies que hoje só sobrevivem graças ao cuidado humano - completamente diferentes fenotipica e genéticamente de seus ancestrais selvagens.
De certa forma, o surgimento de uma forma de produzir alimentos por si causou uma mudança decisória no rumo da nossa espécie e até hoje a relação entre a humanidade e o alimento causa grande influência no status quo social e revoluções culturais e sociais que ocorrem e estão por vir.
Bebida é água, comida é pasto. Você tem fome do que? Você tem sede do que?
Quando abrimos a geladeira e olhamos um bife, uma verdura ou qualquer outro produto alimentício, pouco pensamos na origem desses alimentos e nas problemáticas diversas que envolvem desde à produção até a comercialização dos mesmos (os alimentos). Pouco nos esforçamos pra pensar que um bife provém de um animal e que animais se utilizam dos mesmos recursos que nós - e muitas vezes diversos desses recursos faltam aos humanos e sobram aos bois, como água (como jogar pérolas aos porcos, ou aos bois, na verdade). Pouco pensamos que um vegetal que vá crescer precisa de sol, luz, água, nutrientes, espaço e outros fatores diversos dos quais boa parte é convertida em biomassa e nós comemos parte dessa biomassa, como manter o solo saudável e nutritivo a longo prazo? Como evitar a desertificação?
Ok, se ficarmos nos questionando desta forma sobre tudo que nós comemos, iremos perder mais tempo olhando a geladeira do que o normal. Na verdade, não há nenhum alimento existente isento de influências dos mais variados espectros da sociedade, sistema econômico, cultura e meio ambiente (inclusive pizza, infelizmente).
Homo sapiens sapiens domesticus
Na revolução neolítica, um dos fatores mais importantes para nossa espécie foi a pesada modificação do seu próprio ambiente realizadas pelos humanos que agora se estabeleceram em um local fixo. Domesticação é o processo que envolve a seleção artificial e consiste em transformar um organismo selvagem como está no seu habitat natural em um organismo mais viável pra qualquer uso que pudermos dar a eles - de forma simples e em algumas gerações, as plantas com características mais agradáveis aos olhos dos seus cultivadores eram selecionadas em relação a aquelas que ainda preservavam suas características selvagens - assim, hoje temos maçãs, abacates, milhos, mandiocas, alfaces, tomates, vacas, porcos, cachorros, cavalos, heikigani, leveduras e toda a lista de todas (sim, eu disse todas) as espécies vegetais e animais chamadas comumente de espécies "domésticas" (arroz: Oryza sativa, sativa em latim quer dizer "que é cultivada").
Logo, não só causamos grande alteração no ambiente natural para possibilitar nossos cultivos, mas também temos a responsabilidade por influenciar milhões de linhagens evolutivas (olha só que fita!).
Caçadores, coletores, manos e minas
A possibilidade de desenvolver o controle sobre um cultivo vegetal ou uma espécie animal fez com que várias das sociedades humanas abandonassem o estilo de vida nômade para obter o conforto da vida sedentária em qualquer lugar fértil aonde as sementes jogadas brotariam. Com essa fonte excedente de alimento, a população humana pode ter a capacidade de realizar uma enorme explosão demográfica - o ser humano agora não era mais um animal a mercê do seu ambiente, ele era o mestre deste. Com isso, os "deuses venceram os titãs" e a humanidade floresceu em grandes civilizações.
Com isso, também é possível perceber uma grande modificação da estruturação da divisão sexual do trabalho. Ao passo em que os seres humanos necessitavam menos e menos da carne obtida com a caça (papel social dos homens, em maior parte das sociedades) e passaram a cultivar o alimento dentro de seu território, homem e mulher encontram no campo uma igualdade na divisão social do trabalho - porém, o senso comum de que mulheres devem ficar reclusas "à caverna" permanece de forma decisiva em várias sociedades, inclusive as que homem e mulher às vezes tinham de desempenhar papéis semelhantes na sociedade (pra vocês verem como nenhuma m**** nesse mundo é novidade). Ainda assim, é possível perceber como uma constante dentro das sociedades humanas (atuais, como em alguns povoados da Índia) que quanto menos carne como base alimentar, menor a diferença social entre homem e mulher, mostrando como alguma diferença na alimentação se relaciona a uma identidade cultural (olha só que fita!!!).
Quem veio primeiro, o ovo ou o neo-córtex?
Um cérebro grande tem uma alta exigência energética. Segundo evidências arqueológicas, acredita-se que nossos ancestrais só possibilitaram o crescimento da massa cerebral devido a adição dos alimentos (primariamente carne) cozidos - desta forma, eram disponibilizados nutrientes de absorção mais "fácil" e o risco de envenenamento por comida crua podia ser resolvido.
Ao passo que a partir do ponto aonde chegamos, obter nutrientes não é mais um problema, muito pelo contrário: ainda existindo vastas regiões aonde pessoas morrem por desnutrição ou complicações deste, pesquisas mostram que em realidades completamente diferentes pessoas sofrem com as complicações relacionadas à obesidade e excesso de alimentos industrializados. Uma salada nutricionalmente pobre não seria a escolha de nenhum animal onívoro, porém, temos uma fonte alimentar tão "rica" que em certas porções do mundo que pessoas literalmente morrem por comer demais (e mau, ao mesmo tempo, veja só que fita!!!).
Do prato ao prato, do pó ao pó
Pessoas comem alimentos de deus sabe de onde sem se perguntar o que estão consumindo. Como resultado, poucos se preocupam com assuntos como segurança alimentar, produção sustentável de alimentos ou mesmo alimentação orgânica. Hoje, vemos a grande problemática do uso de cultivos transgênicos e uso de agrotóxicos tomar um âmbito mundial de importância - o que vemos ocorrer na prática é muito diferente.
Hoje o interesse econômico suplanta de forma esmagadora a demanda de alimento. As técnicas usadas na maior porção dos terrenos cultivados compromete o solo e a biodiversidade geral, pois ocupamos hectares de uma espécie em detrimento das áreas nativas (com respostas ambientais à altura). 2/3 das colônias de abelhas melíferas já foram varridas e suspeitas aumentam em relação aos defensivos agrícolas.
Em meio a isso, diversas iniciativas nadam contra a aparente corrente e tentam desenvolver técnicas de produção de alimento ecologicamente correta, socialmente justa e que supra a real demanda alimentar da população mundial. Correntes como a agricultura agroecológica, agricultura biodinâmica, permacultura e outras trazem o discurso de que o que ocorre hoje é a verdadeira regressão tecnológica do ser humano em relação a forma como este desenvolveu sua relação com o meio que o cerca.
Documentários interessantes:
https://www.youtube.com/watch?v=sWxTrKlCMnk
https://www.youtube.com/watch?v=dvv85bE_7HY
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Aqui há vários exemplos de como a alimentação e o processo de produção de alimentos influenciam e são influenciados pela sociedade humana. Domesticamos o fogo, plantamos nossos próprios alimentos, adquirimos o controle das bestas e plantas da terra ao ponto de nos tornarmos presos em uma armadilha criada em nós por nossos ancestrais que viveram sob estiagem e fome constante.
Porém, a ligação que tomamos com nossa comida e sua origem difere em muito do que seria o aceitável em outras sociedades ou em tempos mais remotos.
E você? O que coloca no seu prato agora?
Porém, a ligação que tomamos com nossa comida e sua origem difere em muito do que seria o aceitável em outras sociedades ou em tempos mais remotos.
E você? O que coloca no seu prato agora?
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